terça-feira, 19 de julho de 2016

Joana de Cusa


      Entre a multidão que invariavelmente acompanhava a Jesus nas pregações do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedicação e nobre caráter, das   mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. Tratava-se de Joana, consorte de Cusa, intendente de Ântipas, na cidade onde se conjugavam interesses vitais de comerciantes e de pescadores.

      Joana possuía verdadeira fé; contudo, não conseguiu forrar-se às amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores íntimos, a nobre dama procurou o Messias, numa ocasião em que ele descansava em casa de Simão, e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O esposo não tolerava a doutrina do Mestre. Alto funcionário de Herodes, em perene contacto com os representantes do Império, repartia as suas preferências religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranqüilidade fácil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus  temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.

      Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe ponderou:

      – Joana, só há um Deus, que é o Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações religiosas, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos homens. Entre o sincero discípulo do Evangelho e os erros milenários do mundo, começa a travar-se o combate sem sangue da redenção espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgado digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. eviano e indiferente? Ama-o, mesmo assim. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de uas dúvidas. Deves, pelo Evangelho, amá-lo ainda mais. Os sãos não precisam de médico. Além disso, não poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos amanhar o solo que produziu cardos envenenados, a fim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida.

      Joana deixava entrever no brilho suave dos olhos a íntima satisfação que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, patenteando todo o seu estado dalma, interrogou:

      – Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do meu lar. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o céu e para o vosso reino?

      O Cristo sorriu serenamente e retrucou:

      – Quem sentirá mais dificuldade em estender as mãos fraternas, será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação, da inconstância ou da indolência do espírito? Quanto à imposição das idéias – continuou Jesus, acentuando a importância de suas palavras -, por que motivo Deus não impõe a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra? A sabedoria celeste não extermina as paixões: transforma-as. Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deus, apenas com uma lágrima. O Pai não impõe a reforma a seus filhos: esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apostolado do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando o teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável. Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio, por toda a Criação. Vai!… Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama o teu companheiro como o material divino que o céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!… Joana de Cusa experimentava um brando alívio no coração.

      Enviando a Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda lhe ouviu as últimas palavras:

      – Vai, filha!… Sê fiel!

*

      Desde esse dia, memorável para a sua existência, a mulher de Cusa experimentou na alma a claridade constante de uma resignação sempre pronta ao bom trabalho e sempre ativa para a compreensão de Deus. Como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, considerou que, antes de ser esposa na Terra, já era filha daquele Pai que, do Céu, lhe conhecia a generosidade e os sacrifícios. Seu espírito divisou em todos os labores uma luz sagrada e oculta. Procurou esquecer todas as características inferiores do companheiro, para observar somente o que possuía ele de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embrião vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o céu lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos; ela, porém, sem olvidar as recomendações de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores num hino de triunfo silencioso em cada dia. Os anos passaram e o esforço perseverante lhe multiplicou os bens da fé, na marcha laboriosa do conhecimento da vida. As perseguições políticas desabaram sobre a existência do seu companheiro. Joana, contudo, se mantinha firme. Torturado pelas idéias odiosas de vingança, pelas dívidas insolváveis, pelas vaidades feridas, pelas moléstias que lhe verminaram o corpo, o ex-intendente de Ântipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Sua esposa, todavia, suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho que Deus lhe confiara. Algumas amigas lhe chamaram a atenção, tomadas de respeito humano. Joana, no entanto, buscou esclarecê-las, alegando que Jesus igualmente havia trabalhado, calejando as mãos nos serrotes de modesta carpintaria e que, submetendo-se ela a uma situação de subalternidade no mundo, se dedicara primeiramente ao Cristo, de quem se havia feito escrava devotada.

      Cheia de alegria sincera, a viúva de Cusa esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras mães, ocupou-se com os mais subalternos afazeres domésticos, para que seu filhinho tivesse pão. Mais tarde, quando a neve das experiências do mundo lhe alvejou os primeiros anéis da fronte, uma galera romana a conduzia em seu bojo, na qualidade de serva humilde.

*

      No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espetáculos sucessivos do circo, uma velha discípula do Senhor amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho.

      Ante o vozerio do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.

      – Abjura!… – exclama um executor das ordens imperiais, de olhar cruel e sombrio.

      A antiga discípula do Senhor contempla o céu, sem uma palavra de negação ou de queixa. Então o açoite vibra sobre o rapaz seminu, que exclama, entre lágrimas:

      – “Repudia a Jesus, minha mãe!… Não vês que nos perdemos?! Abjura!.. . por mim, que sou teu filho!…

      Pela primeira vez, dos olhos da mártir corre a fonte abundante das lágrimas. As rogativas do filho são espadas de angústia que lhe retalham o coração.

      – Abjura!… Abjura!

      Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e festivo, as horas de ventura, os desgostos domésticos, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez, a desolação e as necessidades mais duras… Em seguida, ante os apelos desesperados do filhinho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo o seu Jesus crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de todas as recordações, como alegria suprema de sua vida, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: – “Vai filha! Sê fiel!” Então, possuída de força sobre-humana, a viúva de Cusa contemplou a primeira vítima ensangüentada e, fixando no jovem um olhar profundo e inexprimível, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente:

      – Cala-te, meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de todas as felicidades transitorias do mundo, é preciso ser fiel a Deus!

      A esse tempo, com os aplausos delirantes do povo, os verdugos lhe incendiavam, em derredor, achas de lenha embebidas em resina inflamável. Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhe o corpo envelhecido. Joana de Cusa contemplou com serenidade a massa de povo que lhe não entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito opresso. Os algozes da mártir cercaram-lhe de impropérios a fogueira:

      – O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer? – perguntou um dos verdugos.

      A velha discípula, concentrando a sua capacidade de resistência, teve ainda forças para murmurar:

      – Não apenas a morrer, mas também a vos amar!…

      Nesse instante, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível: tem bom ânimo!… Joana Eu aqui estou!…



(do Livro Boa Nova, pelo Espírito Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier)

domingo, 17 de abril de 2016

Johann Heinrich Pestalozzi - Biografia

Conheça alguns dados sobre o instrutor pedagógico de Allan kardec

Johann Pestalozzi nasceu em Zurique, Suíça, em 1746 e faleceu em 1827.

Exerceu grande influência no pensamento educacional e foi um grande adepto da educação pública.

Democratizou a educação, proclamando ser o direito absoluto de toda criança ter plenamente desenvolvidos os poderes dados por Deus. Seu entusiasmo obrigou governantes a se interessarem pela educação das crianças das classes desfavorecidas. Podemos dizer que ele psicologizou a educação, pois quando ainda não havia a estruturação de uma ciência psicológica e embora seus conhecimentos da natureza da mente humana fossem vagos, viu claramente que uma teoria e prática corretas de educação deviam ser baseada em tal tipo de conhecimentos.

Em 1782, em seu primeiro livro: Leonardo e Gertrudes, expressa suas idéias educacionais, mas, a obra não foi considerada como um tratado educativo pelas figuras importantes da época.

Pestalozzi decide ser mestre-escola, e vai então, em sua escola, procurar aplicar suas idéias educacionais. Para ele a escola deveria aproximar-se de uma casa bem organizada, pois o lar era a melhor instituição de educação, base para a formação moral, política e religiosa.
Em sua escola, mestres e alunos (meninos e adolescentes ) permaneciam juntos o dia todo, dormindo em quartos comuns.

Vídeo do método de Pestalozzi




Organização da escola:
As turmas eram formadas com os menores de oito anos, com os alunos entre oito e onze anos e outra turma com idades de onze a dezoito anos.
As atividades escolares duravam das 8:00 as 17:00 horas e eram desenvolvidas de modo flexível; os alunos rezavam, tomavam banho, faziam o desjejum, faziam as primeiras lições, havendo um curto intervalo entre elas.
Duas tardes por semana eram livres, e os alunos realizavam excursões.
Os problemas disciplinares eram discutidos à noite; ele condenava a coerção, as recompensas e punições.

Situação educacional vigente enquanto Pestalozzi introduzia suas reformas educacionais:

A igreja controlava praticamente todas as escolas e não havia preocupações com a melhoria da qualidade; as classes privilegiadas desprezavam o povo, os professores não possuíam habilitação, existiam pouquíssimos prédios escolares e a ênfase educacional era dada à memória. A revolução suíça ocorrida em 1799 havia liberado a classe desfavorecida e, segundo Pestalozzi, somente a educação poderia contribuir para que o povo conservasse os direitos conquistados, isto é, a educação poderia mudar a terrível condição de vida do povo.

Princípios Educacionais e Contribuições de Pestalozzi
O desenvolvimento é orgânico, sendo que a criança se desenvolve por leis definidas; a gradação deve ser respeitada; o método deve seguir a natureza; a impressão sensorial é fundamental e os sentidos devem estar em contato direto com os objetos; a mente é ativa; o professor é comparado ao jardineiro que providência as condições propícias para o crescimento das plantas.
Crença na educação como o meio supremo para o aperfeiçoamento individual e social.
Fundamentação da educação no desenvolvimento orgânico mais que na transmissão de idéias memorizáveis.
A educação começa com a percepção de objetos concretos e conseqüentemente com a realização de ações concretas e a experimentação de respostas emocionais reais.
O desenvolvimento é uma aquisição gradativa, cada forma de instrução deve progredir de modo lento e gradativo.
Conceituação de disciplina baseada na boa vontade recíproca e na cooperação entre aluno e professor.
Introdução de novos recursos metodológicos.
Deu impulso à formação de professores e ao estudo da educação como uma ciência.

Pestallozzi e sua equipe elaboram materiais pedagógicos, voltados a linguagem, Matemática, ciências, geografia, história e música. E assim, ele afirma: (Apud: SEE-RJ - http://www.riojaneiro.rj.gov.br/rio.html)


"A Educação se constrói numa tensão permanente entre os desejos do homem natural individual e o desenvolvimento da natureza humana universal. A educação produzirá a universalidade a partir das particularidades e da mesma forma a particularidade a partir da universalidade".

Fonte: www.centrorefeducacional.com.br

domingo, 27 de março de 2016

Miguel de Oliveira Couto




Médico clínico geral e sanitarista, político e professor brasileiro nascido na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império, que dedicou parte de sua vida profissional à melhoria das condições de saúde popular, pela pesquisa e divulgação dos princípios de higiene e deixou extensa obra nesse setor. Era filho de Francisco de Oliveira Couto e de Maria Rosa do Espírito Santo, freqüentou o Colégio Briggs e diplomou-se pela Academia Imperial de Medicina (1883), no Rio de Janeiro. Tornou-se assistente da cadeira de Clínica Médica até se doutorar (1885), dois anos em que foi interno da Santa Casa de Misericórdia e ao mesmo tempo assistente, por concurso, da cadeira de clínica médica, regida por João Vicente Torres Homem. Foi admitido na Academia Nacional de Medicina (1896), como membro titular, com o trabalho Desordens funcionais do pneumogástrico na influenza. Ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro como lente, por concurso (1898) e tornou-se professor de clínica propedêutica (1901), substituindo o notável professor Francisco de Castro. Foi eleito presidente da Academia Nacional de Medicina (1914) e reconduzido ao cargo sucessivamente. Membro da Academia Brasileira de Letras (1916) e empossado trÊs anos depois (1919), tornou-se presidente honorário da Associação Brasileira de Educação (1927). Na cerimônia em que lhe foi conferido o título, proferiu conferência cujo título se tornou um lema da ABE na época: No Brasil só há um problema: a educação do povo. Eleito deputado pelo Distrito Federal, atual cidade do Rio de Janeiro, para a Assembléia Nacional Constituinte (1933), obteve a aprovação do projeto que destinava dez por cento das rendas da União para a instrução popular. Membro de numerosas instituições científicas nacionais e internacionais, como da Société Médicale des Hôpitaux de Paris, e doutor honoris causa da Universidade de Buenos Aires, recebeu as medalhas da Instrução Pública da Venezuela e da Coroa da Bélgica.  Poliglota e profundo conhecedor da língua portuguesa., participou de vários congressos de Medicina nos quais se destacou pela sua competência profissional, sendo considerado um dos mais notáveis clínicos de sua época e faleceu na cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, aos 69 anos. De sua vasta obra, entre suas obras destacaram-se Clínica médica (1923), Nações que surgem, nações que imergem (1925) e A medicina e a cultura (1932), além de Contribuição para o estudo das desordens funcionais do pneumogástrico na influenza, A gangrena gasosa fulminante e Diagnóstico precoce da febre amarela pelo exame espectroscópico da urina. Radical em seus conceitos, uma das suas teses político-científicas mais famosas e polêmicas foi sobre o darwinismo social e de eugenia racial. Esta idéia propunha a necessidade do branqueamento da população brasileira e o fim da imigração dos degenerados aborígenes orientais. O resultado foi a aprovação por larga maioria de uma emenda constitucional que estabelecia cotas de imigração sem fazer menção a raça ou nacionalidade e proibia a concentração populacional de imigrantes. Segundo o texto constitucional, o Brasil só poderia receber em por ano no máximo 2% do total de ingressantes da cada nacionalidade que tinha sido recebida nos últimos 50 anos. Esta política de cotas não afetou a imigração de europeus, mas prejudicou a imigração de japoneses e, futuramente, de chineses e coreanos. Pai de Miguel Couto Filho, e de Elza Couto Bastos Netto, em sua homenagem foi nomeado o famoso Hospital Municipal Miguel Couto, na cidade do Rio de Janeiro, referência nacional em ortopedia e traumatologia.
Figura copiada de página do site do IHGS:
http://www.ihgs.com.br/


https://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Couto_Filho

quarta-feira, 16 de março de 2016

Chico e Ignez de Castro



Chico e Ignez de Castro
O romance Ignez e Pedro, que editamos em dezembro de 2013, nasceu de longos papos com Francisco Cândido Xavier e relata a vida extremamente simples da bela Ignez de Castro, embora o poder real a visse como séria ameaça ao reino de Portugal. As alegadas razões de Estado para a sua morte permanecem inexplicadas.
Chico Xavier jamais escondeu seu fascínio pela dama galega, decapitada a 7 de janeiro de 1355, deixando o marido enlouquecido e três filhos pequeninos.
Nos velhos tempos de nossa convivência, Chico discorria sobre Ignez com lágrimas nos olhos. E falava-nos, também, com carinho inexcedível, de Maria João de Deus, sua mãe, e de Isabel de Aragão, a santa rainha que a comunidade da península Ibérica tanto respeita.
Lembra-me, especialmente, certa ocasião em que Chico, emocionadíssimo, relatoume com detalhes a cena que se seguiu à brutal morte de Ignez, ocorrida na presença dos filhos tão pequenos, da aia Ana, da irmã Maria do Convento de Santa Clara e do espírito de Isabel de Aragão. Não estava presente Pedro, seu esposo, envolvido em uma caçada com o cunhado Álvaro, a poucos quilômetros do local onde Ignez perdera a vida.
Ignez de Castro foi cruelmente degolada nas primeiras horas da manhã fria de uma quarta-feira, daquele trágico 7 de janeiro.
O que ouvi do Chico consta do capítulo Inês e Isabel, do livro Ignez e Pedro e reproduzo a seguir:
Surgiam as claridades do dia naquela manhã que enlutava toda Coimbra. Respirava- se imensa tristeza.
O carrasco cumprira sua missão e afastara-se, envergonhado, levando o cepo e o machado que martirizaram Inês. Os algozes se retiraram do pátio com a estranha sensação do dever cumprido...
Ana, atônita, desesperada ante a terrível cena que presenciara, envidava todos os esforços para ocultar Inês desfigurada às inocentes crianças, apesar da rebeldia do mais velho.
João Álvaro, apavorado, presenciou a decapitação da mãe, pois desgarrou-se de Ana, que fizera de tudo para segurá-lo.
Em eloquente mudez, estavam também presentes as caridosas irmãs do mosteiro.
Dentre elas uma se destacava pelo zelo e carinho com que procurava recompor o corpo de Inês, para conduzi-lo, com desvelo, à igreja do convento de Santa Clara.
Seu nome?
Maria! Tornara-se clarissa pelas mãos de Isabel. Sua caminhada, nos séculos vindouros, se interligaria à de Inês para toda a eternidade, sob as bênçãos da Rainha Santa.
O silêncio era sepulcral, e somente o interrompiam os soluços contidos das poucas pessoas presentes naquele ambiente de dor...
Serviçais reconhecidas à jovem dama lavavam, desconsoladas, o pátio do paço, onde o sangue da mártir se espalhava por toda parte.
Até mesmo a natureza prestava sua última homenagem à criatura de Deus cuja vida fora ceifada com tamanha violência:
Ali, bem próximos, na Quinta das Lágrimas, encontravam-se tentilhões em fuga dos rigores do frio do norte europeu, na ansiosa busca do inverno mais brando em Coimbra. Mas, não se ouvia o seu forte gorjeio tenoril.
Igualmente estavam ausentes o farfalhar das agitadas toutinegras e o alarido dos tordos. Silentes, abrigavam-se esses pássaros na ramaria dos carvalhos e plátanos, solidários a Inês naquele momento de infinita dor...
E Inês de Castro?
Onde se encontrava a mulher de olhar penetrante, que procurou, de todas as formas possíveis, evitar aqueles assustadores momentos, suplicando a atenção de Pedro para as tramas palacianas? Onde estaria Inês, que não conseguira sensibilizar o esposo com suas aflitivas premonições?
Já repousava na igreja do convento...
Do verde aguado do lençol translúcido que a cobria, emanava um quê de misteriosa paz. Isabel, vindo das Alturas Celestiais, desde a chegada dos algozes no paço de Santa Clara, ainda de madrugada, não se afastara de Inês em momento algum.
Enquanto as clarissas oravam ao Senhor, em comovente silêncio, irmã Maria divisou no recinto uma suave claridade que cobria toda a ambiência. E exclamou, levando a mão à boca na tentativa de conter a voz:
— Estou a ver a Rainha Santa, nossa protetora, nimbada de luz!
Isabel de Aragão contemplou-a com o olhar triste, sem nada dizer, em respeito à grave situação, e permaneceu junto ao corpo dilacerado da jovem martirizada, ajeitando Inês, já despojada do veículo físico, com desvelo em seu regaço. A santa soberana afagava Inês, beijando-a e acariciando seus cabelos com inexcedível ternura.
Em determinado momento, achegou-se um pouco mais do seu rosto, tão belo, e falou-lhe:
— Filha querida! Roguei tanto a Maria, nossa Mãe Santíssima, que me permitisse estar junto a ti!
Inês, decapitada, estava atordoada pela anestesia ministrada por caroáveis médicos da Vida Maior. Atentos e zelosos, seguiam de perto a Rainha Santa desde os primeiros instantes da tragédia.
Isabel permaneceu demoradamente em prece, apondo-lhe sobre a fronte suas mãos evanescentes.
A inocente vítima, aturdida, despertou sem nada compreender. As lágrimas brotavam de seus olhos glaucos.
Descrever sua beleza com nosso restrito acervo de palavras é impossível.
Seus longos cabelos estavam viçosos como sempre, qual se nada lhe tivesse ocorrido...
Assim como as flores no Plano Espiritual se revestem de matizes mais vivos que os da Terra, o rosto de Inês, agora sereno, estava arrebatador e mostrava-se diverso daquele que rolara minutos atrás, ante a cruel agressão do machado.
Do ouro dos cabelos e da face alva irradiava sutilíssima claridade que realçava o verde dos olhos tão belos.
Lembrava aquela Inês dos saudosos tempos, os da Quinta de Canidelos, de longe o período mais feliz de sua vida. Era quando Pedro a contemplava, qual se dirigisse o olhar a uma deusa, cujo sorriso exalava a paz que lhe reconfortava o espírito sempre atribulado.
Seu implemento físico restara destruído no pátio do paço da rainha, mas seu espírito estava vivo para a eternidade, aconchegado ao colo de Isabel.
Ao sentir as vibrações da santa rainha, ainda vacilante e indecisa, com extrema dificuldade, mal refeita do golpe de Brás, Inês conseguiu falar, reconhecendo a benfeitora:
— A senhora é Isabel de Aragão!
Eu vos reconheço pela descrição que ouço sempre de Pedro, destacando-vos a beleza e o olhar bondoso. Recordo-me também de vossa voz, tranquilizando-me, quando me achava febril, após o enlace de Pedro e Constança na Sé de Lisboa... Há quanto tempo, meu Deus!
Por favor, suplico-vos, trazei Pedro e as minhas crianças. Preciso vê-los! Sinto-me desmemoriada, cansada, com a sensação de que violento impacto atingiu-me. E, num último esforço, já abatida pelo cansaço, sussurrou:
— Graças a Deus, isso não aconteceu...
Isabel, não desejando assustá-la, respondeu com muito afeto, sem mencionar o que ocorrera:
— Sim, minha querida filha, sou Isabel. Precisas descansar um pouco.
Ofegante, Inês solicitou-lhe:
— Minha senhora, por misericórdia, antes trazei Pedro e as crianças.
Isabel ponderou:
— Minha filha tão amada! Que emoção reter-te em meus braços. Jesus permitiu-me que ficasse a teu lado nessa manhã que tanto significa para nós.
Doravante estaremos sempre juntas. Afinal tu és um pedaço do meu coração, minha criança. Acompanho-te há tempos que se perdem no imensurável passado. Tem paciência, rogo-te. Logo Pedro e os filhinhos virão. Tu careces de longo repouso, para retomar as energias combalidas. Trouxe comigo tua mãe para ficar a teu lado.
Num grande sobressalto, Inês, emocionada com o devotamento da Rainha Santa, divisou o vulto de D. Aldonça destacar-se no ambiente iluminado e abraçá-la com todas as forças de seu coração.
Apenas conseguiu dizer:
— Mãe, desde a meninice não vos vejo!
Então, com um travo de amargura, Inês a tudo compreendeu: já deixara o seu corpo na Terra...
— Anjo de minha vida, viestes buscarme? Ides levar-me ao Céu?
— Filha querida, já estamos no Céu. Tua profunda afeição a Pedro e às crianças e tua vida de renúncia fazem-te merecedora da presença de Isabel, um céu em nossas vidas.
Peço-te um pouco de paciência; logo reverás as criaturas que tanto amas, porém é preciso partir. Não te preocupes, pois estarei sempre vigilante ao lado de Ana, amparando a Pedro, Beatriz, João e Dinis.
Por favor, acompanha Isabel.
Inês segurou-lhe a mão com tamanha determinação que D. Aldonça dirigiu o olhar em súplica à Rainha Santa, rogando ajuda.
Nesse momento, surgiu no ambiente uma faixa etérea de um azul suave, desenhando o caminho a ser percorrido em direção a paragens celestiais.
Isabel fez Inês adormecer e conduziu-a, volitando sobre essa esteira de luz, a acolhedor recanto, onde lhe preparara com afeto um leito aconchegante.
Quem estivesse presente veria duas grandes almas de incomum beleza seguirem juntas.
Uma com as marcas do sofrimento, embora atenuadas, a lhe fatigar o rosto adormecido. Outra, levando consigo um presente de Deus, que conduzia com extremo cuidado. Era a mais bela rosa de seu jardim...
A precisão de repouso se fazia mister para o socorro imediato à jovem heroína, em decorrência de sua violenta e brusca separação do corpo. Era essencial que ela se desligasse do mundo que não a compreendera.
E Inês descansou.
Enquanto Isabel de Aragão ascendia aos Céus com aquele anjo ao colo, vozes harmoniosas de espíritos alcandorados seguiram- na, entoando hinos de louvor ao Divino Mestre:
— Glória a Deus nas Alturas, paz na Terra!...
E foi assim que Portugal perdeu a oportunidade de viver sob a proteção de uma rainha que, inspirando o marido, traria paz e solidez ao reino, amparo e esperança ao povo, sobretudo à gente sofrida dos campos, que ela tanto amava.
Seria ela a discípula da santa rainha, seguindo-lhe o exemplo e auxiliando Pedro a exercer seu mandato real.
Isabel sempre acompanhara as deliberações de D. Dinis, sobretudo batendo-se com firmeza para atenuar ou evitar as guerras e mostrando-lhe, com sua sublime atuação em favor dos desafortunados, ser imprescindível a tolerância em suas decisões.
Inês, após quase três meses de repouso e reintegração à vida no Além, sob os cuidados de Isabel, voltaria à Terra já refeita, para rever os filhos e permanecer junto a Pedro.
Sob a orientação da Rainha Santa, dedicou- se com devoção, para que o esposo pusesse fim à vingança contra o pai e selasse as Pazes de Canaveses.
Com essa interferência direta do Plano Espiritual, o reino renasceria da comoção dos tremendos embates que o sacudiram, tendo como causa apenas uma simples história de amor.
História tão simples, qual aquela de um casal enamorado que vive no casebre, ao sopé da montanha, com o riacho cristalino correndo ao lado e tendo como dossel as estrelas...
Pena, pena mesmo, que Chico Xavier, com sua imensa bondade, não mais esteja fisicamente conosco.
Nós espíritas temos muito a aprender com ele, que a tudo renunciou, servindo a Jesus ao longo de todo o século passado.
Se estivesse ainda conosco, ter-nos-ia Chico contado muito mais sobre Ignez e Isabel de Aragão, anjos que iluminavam o triste e obscuro período medieval, mergulhado na fome, nas pestes e nas guerras.
E também falar-nos-ia daqueles tempos longínquos, baldos de esperança na vida após a morte, que tanto os infelicitava, desenhada para o cidadão da Idade Média na figura do Céu inabordável e das chamas infernais.
A consoladora doutrina de Kardec, vivenciada plenamente pelo Chico, somente se materializaria séculos depois, descortinandonos a realidade da vida no Plano Espiritual e as bênçãos regeneradoras da reencarnação.
E mais, Chico buscou, com seu terno sorriso, mostrar-nos que podemos, sim, ser felizes na Terra, qual ele foi. Como?
Servindo à causa de Jesus, que nos ensinou sua mensagem de Vida Eterna nas pregações no Mar da Galileia, o imenso lago de margens recamadas de simples povoados, de tão grata recordação: Corazim, Cafarnaum, Magdala, Tiberíades, Betsaida...
Caio Ramacciotti

domingo, 13 de março de 2016

Frederico Júnior

Aos 30 de Agosto de 1914, após dolorosa enfermidade, desencarnava, com a resignação e a confiança do verdadeiro espírita, o célebre médium brasileiro Frederico Pereira da Silva Junior, cuja vida, como escreveu Pedro Richard, seu grande amigo e companheiro de 32 anos, “foi muito mais acidentada e grandiosa do que a de Madame Esperance, contada por ela própria em seu livro No País das Sombras”.

O primeiro contato dele com o Espiritismo foi em 1878, na “Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade”, aí levado pelo seu padrinho Luis Antônio dos Santos. Desejava Frederico obter notícias de uma pessoa querida desencarnada havia algum tempo. Para surpresa geral, ele próprio cai em transe sonambúlico, influenciado por um Espírito. Data daí a sua iniciação como médium na mencionada Sociedade.

Convertido, também em 1878, o Doutor Antonio Luis Sayão ao Espiritismo, pouco tempo depois um ilustre amigo dele, o professor de Filosofia J. Rodrigues de Macedo, soube, com tristeza, do fato e, talvez com o objetivo de desmascarar o “embuste”, pediu-lhe para assistir uma sessão mediúnica. Comparecendo a ela, eis que, por intermédio de Frederico Junior, o pai do referido professor, falecido havia anos, dirigiu ao visitante uma saudação afetuosa, em letra firme, caligrafia que foi imediatamente reconhecida pelo filho, entre emocionado e assombrado.

Quando a “Sociedade de Estudos Espíritas” tomou, em 1879, rumo puramente cientifico, constituindo-se na “Sociedade Acadêmica Deus Cristo e Caridade”, dela se desligou um grupo de elementos, entre os quais se achavam Bittencourt Sampaio, Antonio Luis Sayão e Frederico Junior, e fundaram, em 1880, o “Grupo Espírita Fraternidade”, de orientação evangélica, e que ficou memorável pelos seus notáveis trabalhos de desobsessão, ali se estudando, nas sessões ordinárias, o Evangelho de Jesus segundo a Revelação dada a J, B. Roustaing.

Em 1882, já havia nesta última Sociedade um seleto número de médiuns, destacando-se Frederico, quer pela variedade de dons mediúnicos, quer pela extrema dedicação ao trabalho na Seara espírita.

Não apenas ao referido Grupo prestou Frederico a sua colaboração mediúnica. Em 06 de junho de 1880, o Doutor Antonio Luis Sayão depois de, em vão, tentar unir, em torno de um mesmo ideal, os membros das duas Sociedades dissidentes, fundou sob a inspiração do Guia do Espiritismo no Brasil, um pequeno grupo destinado ao estudo e a prática dos Evangelhos, conhecido por “Grupo dos Humildes” ou “Grupo Sayão”, mais tarde (quando se incorporou à Federação Espírita Brasileira) denominado “Grupo Ismael”. Em sua primeira sessão, no dia 15 de julho de 1880, Frederico Junior atuou como médium, tendo recebido longa mensagem do elevado Espírito de Ismael, a falar de suas esperanças ante os novos esforços para a reabilitação do Espiritismo em terras do Brasil. Desse novo núcleo constam como fundadores, além dos nomes citados, os seguintes médiuns de ilibada moral: Isabel Maria de Araújo Sampaio, João Gonçalves do Nascimento, prodigioso médium curador, Manuel Antonio dos Santos Silva e Francisco Leite de Bittencourt Sampaio. Quase todos eles faziam parte também do “Grupo Espírita Fraternidade”.

Durante 34 anos Frederico Junior exerceu assiduamente suas funções mediúnicas no Grupo Ismael, tendo recebido, em 11 de junho de 1914, a sua última comunicação do Além.

Por seu intermédio contam-se centenas de curas de obsessões, limitando-se, mais tarde, os trabalhos no referido Grupo quase que somente à doutrinação de poderosos e diabólicos Espíritos, altamente intelectualizados, chefes de grandes falanges do mal.

Em 1893 o Dr. Antonio L. Sayão dava a público o volume “Trabalhos Espíritas”, repositório de instrutivas mensagens de Espíritos elevadíssimos, obtidas no “Grupo Ismael”, em sua maior parte pelo médium Frederico. Em 1897, mais uma obra organizada por Sayão saía a lume: “Estudos dos Evangelhos”, que desde a sua segunda edição (1902) ganhou um novo título: “Elucidações Evangélicas”. A segunda parte deste livro (hoje excluída a fim de torná-lo acessível à bolsa dos confrades) encerrava quase uma centena de belas comunicações, todas igualmente recebidas no “Grupo Ismael”, pela mediunidade sonambúlica de Frederico. “Elucidações Evangélicas” é, em síntese, “um resumo de Roustaing, com as vantagens de Allan Kardec”. E por ser - segundo as palavras de Bezerra de Menezes - “uma obra preciosa em que transluzem os clarões da Verdade”, ela continua a merecer a atenção dos estudiosos do Evangelho.

Bittencourt Sampaio desencarnara em 1895. Dois anos depois, o seu sublime Espírito, encontrando em Frederico Junior o instrumento maleável à expansão dos seus ideais cristãos, começou a ditar, por seu intermédio, três obras em que sobressaem belíssimas páginas literárias e doutrinárias e que foram publicadas pela FEB nesta ordem: “Jesus Perante a Cristandade” (1898), “De Jesus para as Crianças” (1901), e “Do Calvário ao Apocalipse” (1907). Em todas elas reconhecia-se o mesmíssimo estilo do autor de “A Divina Epopéia”, apesar de serem ditadas através da boca de um homem iletrado, que mal conhecia a gramática. Nascera e crescera o médium num meio de operários, sem recursos e tempo para cursar colégios. Rodeado de boêmios até a adolescência, jamais se deixou arrastar pelos excessos ou desvios desses últimos.

Médium passivo por excelência, conseguiam os Espíritos identificar-se facilmente por ele, e, muitas vezes, antes de terminar a mensagem, todos os presentes já sabiam qual o autor dela.

Numa apreciação ao primeiro livro ditado pelo Espírito Bittencourt Sampaio ao médium Frederico, o ilustre político, literato e publicista Dr. Eunápio Deiró, católico extremado, chamou para o fato a atenção do bispo da cidade do Rio de Janeiro, nos seguintes termos: “Tome, Senhor Bispo, cuidado, porque quem conhece o inimitável estilo de Bittencourt Sampaio não pode deixar de reconhecê-lo neste livro que, da outra vida, veio firmado pelo próprio Bittencourt Sampaio”.

Bem conhecidas dos espíritas brasileiros, são as oportuníssimas instruções que o Espírito de Allan Kardec transmitiu no “Grupo Espírita Fraternidade”, pelo médium Frederico Junior.

Conquanto recebidas em fins do século passado, tais instruções ainda conservam, perenes, o valor, a importância e a beleza de sua mensagem, ainda se ajustam perfeitamente aos dias atuais, daí estarem até hoje no opúsculo “A Prece”, de Allan Kardec, incluídas que foram pela Federação Espírita Brasileira.

Frederico Junior era um bom, querido de todos, sendo muitos os que lhe deviam gratidão por um que outro serviço, e, como funcionário público, estimadíssimo pelos seus colegas. “Era de um desprendimento e dedicação verdadeiramente evangélicos” - afirmou Pedro Richard, acrescentando: “Frederico não podia parar em casa, com o sentido nos seus doentes. Logo ao amanhecer saía de sua residência para visitar os enfermos. E nisso estava o seu maior consolo e o seu bem-estar”.

Com graves responsabilidades no meio espírita, grande era sobre ele o assédio dos aborrecidos da Luz, que do outro plano da vida o perseguiam tenazmente. “Ele só por si” - escreveu Pedro Richard - “constituía um exercito que assombrava as falanges inimigas da Luz, e por isso mesmo era o alvo predileto das setas venenosas dos adversários de Jesus. Até da pouca benevolência de confrades foi Frederico Junior vítima, máxime dos que muito exigem dos outros, mas que nada, ou quase nada produzem”.

Nos últimos dez anos de existência terrena, mais intensa e persistente foi a perseguição que lhe moveram do Espaço, por vezes ficando ele totalmente subjugado. Certa vez, os Espíritos das Trevas tentaram até incendiar-lhe a casa. E graças aos seus Guias protetores e ao Espírito de sua primeira esposa, Frederico não sucumbiu ao suicídio.

A tuberculose pulmonar acompanhou-o nos derradeiros anos de vida. Sem uma queixa e achando justo o seu sofrimento, o prodigioso médium purgava as faltas de encarnações passadas, remindo assim o seu Espírito.

Pressentindo, afinal, o seu desenlace, reuniu a família e, após pronunciar sentida prece, fechou os olhos ao mundo em sua residência à Rua Navarro 121, aos 56 anos de idade, sendo sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Caju).

Foi assim que partiu para a Espiritualidade o grande médium Frederico Pereira da Silva Junior, que, servindo à Federação Espírita Brasileira, através do “Grupo Ismael”, tantos benefícios espalhou por toda a parte, fazendo jus, portanto, à página com que lhe recordamos a passagem por este planeta de provas e expiações.


O médium da primeira hora do Espiritismo no Brasil
Paulo de Tarso Rocha e Ricardo Silva
Há 100 anos, no dia 30 de agosto de 1914, no Rio de Janeiro, retornava ao plano espiritual Frederico Pereira da Silva Júnior, dedicado trabalhador da Federação Espírita Brasileira e valoroso médium, por meio do qual foram transmitidas importantes mensagens psicofônicas e psicográficas que muito auxiliaram os trabalhadores da Casa de Ismael naquela delicada fase inicial da implantação do Espiritismo no Brasil.

Pedro Richard, notável servidor da Casa-Mãe do Espiritismo e amigo de Frederico Júnior durante 32 anos, em artigos publicados em Reformador nos anos de 1914 e 1916,1 afirma que a vida desse médium “foi muito mais acidentada e grandiosa do que a de Madame D’Esperance, contada por ela própria em seu livro No país das sombras”. Frederico Pereira da Silva Júnior nasceu em 1857, no Rio de Janeiro, e cresceu em meio a humildes operários, resistindo às tentações da vida boêmia, tão comuns àquela época. De personalidade dócil, era considerado um homem bom, querido por seus amigos e colegas de trabalho, sempre disposto a auxiliar.

Estudou pouco e teve escassa formação cultural, mas possuía grande inteligência e, profissionalmente, trabalhou como servidor público da Repartição Geral dos Correios.

Casou-se, ficou viúvo e tornou a consorciar-se. Teve filhos nos dois casamentos. Seu primeiro contato mais direto com o Espiritismo ocorreu em 1878, quando tinha 21 anos e resolveu visitar a Sociedade Espírita “Deus, Cristo e Caridade”, a convite de seu padrinho, na esperança de obter informações de uma pessoa querida.

Uma vez lá, Frederico Júnior foi envolvido espiritualmente e atuou na reunião por meio da psicofonia sonambúlica, uma de suas várias especialidades mediúnicas, entre as quais também se incluíam a clarividência, a clariaudiência, a psicografia, os efeitos físicos e a mediunidade de cura. Após o despertar de suas faculdades psíquicas, atuou de 1878 a 1880 na Sociedade Espírita “Deus, Cristo e Caridade”, e, de 1880 a 1882, na Sociedade Espírita Fraternidade, mas exerceu a maior parte do seu mandato mediúnico no conhecido Grupo Ismael, da Federação Espírita Brasileira, no qual totalizou 34 anos de atividades ininterruptas, até sua desencarnação.

Na Casa Máter do Espiritismo, conviveu estreitamente com os valorosos trabalhadores da primeira hora da implantação do Cristianismo Redivivo no Brasil, quais sejam, Bezerra de Menezes, Antônio Luiz Sayão, Francisco Leite de Bittencourt Sampaio e Pedro Richard, entre outros.

Bezerra de Menezes, pela mediunidade preciosa de Yvonne Pereira, no livro A tragédia de Santa Maria,2 editado pela FEB, atesta os raros e preciosos dons psíquicos de Frederico Júnior:

Por esse tempo, existia na capital do País um médium portador de peregrinas qualidades morais e vastos cabedais psíquicos, que dele faziam, sem contestação possível, um dos mais preciosos e eminentes intérpretes da Revelação Espírita no mundo inteiro, em todos os tempos. Encontrava-se ele no apogeu das suas atividades espíritas-cristãs, pois desde doze anos antes abrira aos ósculos da intervenção espiritual sua organização mediúnica, transmitindo do Invisível para o mundo objetivo caudais de luzes e bênçãos, de bálsamos e ensinamentos para quantos dele se aproximassem sequiosos de conhecimentos e refrigérios para as asperidades da existência. Chamava-se ele — Frederico Pereira da Silva Júnior, amplamente relacionado e mais conhecido com a singela abreviatura de — Frederico Júnior. Tão nobre obreiro da Seara Cristã repartia-se em múltiplas modalidades de serviços mediúnicos, dedicado e fraterno até à admiração, porquanto seus dons psíquicos, variados e seguros, obtinham também, do Além-túmulo, as mais lúcidas revelações, relatando para os interessados empolgantes realidades espirituais.2

As sinceras observações de Bezerra de Menezes decorreram da grande convivência que teve, quando encarnado, com Frederico Júnior, por meio do qual recebeu várias orientações espirituais de Ismael, de Celina, a emissária de Maria de Nazaré, e de outros Espíritos atuantes na implantação do Espiritismo no Brasil, entre eles Santo Agostinho.

A estreita afinidade entre Bezerra de Menezes e Frederico Júnior facilitou, inclusive, que o inesquecível presidente da Federação Espírita Brasileira, 24 horas depois da sua desencarnação, utilizasse o referido medianeiro para, em reunião do Grupo Ismael, trazer suas impressões do retorno ao plano espiritual, consolando e incentivando os companheiros encarnados:3

Na noite de 12 de abril de 1900 às sete horas, houve a habitual sessão na Federação Espírita Brasileira. Então todos os que dela participavam ouviram, pela maravilhosa mediunidade sonambúlica de Frederico Pereira da Silva Júnior, a palavra querida do Espírito do nosso Bezerra de Menezes.

Sua mensagem foi longa, e nela mais de uma vez, humildemente, agradeceu a Deus, a Jesus e à Virgem Santíssima as bênçãos divinas que misericordiosamente recebia na pátria espiritual, pois se considerava ainda muito pecador e, portanto, indigno desse sagrado amor de Jesus!3

Importante, ressaltar, nesta oportunidade, fato pouco conhecido pelos espíritas atuais: entre as várias comunicações de Allan Kardec, ditadas por meio da mediunidade segura de Frederico Júnior, há específica orientação aos trabalhadores do Movimento Espírita brasileiro, cuja relevância é reconhecida na obra Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho.4

Imprescindível ressaltar o trecho dessa obra, de autoria do Espírito Humberto de Campos, que focaliza o esforço de Ismael, o Anjo Guardião do Brasil, na unificação dos espíritas brasileiros:

O abnegado mensageiro do Mestre, começando o movimento de organização nos primeiros dias de 1889, preparara o ambiente necessário para que todos os companheiros do Rio ouvissem a palavra póstuma de Allan Kardec, que, por meio do médium Frederico Júnior, forneceu as suas instruções aos espiritistas da capital brasileira, exortando-os ao estudo, à caridade e à unificação.

Bezerra de Menezes, que já militava ativamente nos labores doutrinários, recebeu a palavra do Alto com a alma fremente de júbilo e de esperança, e considerou, no campo de suas meditações e de suas preces, a necessidade de se reunir a família espiritista brasileira sob o lábaro bendito de Ismael, a fim de que o mundo conhecesse o Cristianismo restaurado. […]4

Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, notável trabalhador da Casa de Ismael e Espírito de elevada hierarquia, valeu-se de Frederico Júnior para, do Além, transmitir as belíssimas obras Jesus perante a cristandade, Do calvário ao apocalipse e De Jesus para as crianças, entre outras.

Pedro Richard, nas páginas de Reformador dedicadas à biografia de Frederico Júnior, afirma que muitas e intensas foram as lutas enfrentadas por esse dedicado médium e trabalhador, “verdadeiro soldado de Jesus”, nas palavras do biógrafo.

Este dedicado servidor da Casa de Ismael enfrentou grandes desafios com os quais defrontam os médiuns que se dedicam integralmente ao mandato mediúnico. Pode-se destacar, entre seus vários testemunhos pessoais, a resistência hercúlea às ideias suicidas que lhe assaltavam constantemente a mente.

Todavia, em meio às severas provas que sofreu, Frederico Júnior contou sempre com o apoio inquestionável dos emissários do Plano Maior a lhe confortarem o coração sensível, seja por intermédio dos amigos incansáveis que o amparavam, como Pedro Richard e Bezerra de Menezes, seja pelas atividades caritativas em que sua alma se fortalecia ao amparar o próximo.

Sua desencarnação é tocante.

Em 31 de agosto de 1914, Frederico Júnior, que lutava há tempos contra a tuberculose, possuidor de fé inquebrantável, reúne os familiares e profere sentida prece dedicada a Maria de Nazaré. Ao terminar a oração, retorna ao plano espiritual, de forma serena.

Ouçamos Pedro Richard:1

Após dolorosa enfermidade, Frederico Júnior, sem uma queixa e achando que justo era seu sofrimento, desencarnou. Deixou fotografado no éter um belo quadro que traduz bem a grandeza de seu espírito e a pureza de sua crença. Quero me referir ao que passou nos seus últimos momentos:

Reunindo a família, ora ele próprio uma Ave Maria, e ao terminar a sublime prece, seus lábios emudecem; cerram-se as pálpebras e seu espírito ala-se aos páramos celestes. É assim que desencarnam os filhos de Maria.1

Como sói acontecer com os incansáveis trabalhadores de Jesus, Frederico Júnior prossegue, do Plano Maior, em amplas atividades ligadas à difusão do Cristianismo Redivivo, conforme se pode conferir no relato constante do livro Voltei, assinado pelo Espírito Irmão Jacob, editado pela FEB, no subcapítulo Assembleia de fraternidade.5

Em julho de 2011, na comemoração dos “150 de O livro dos médiuns”, realizada na Sede Histórica da FEB, na Avenida Passos, o médium Divaldo Franco relata a presença deste valoroso amigo espiritual junto a vários outros companheiros da seara.

Sigamos seu exemplo de persistência, dedicação e amor, horando o lema de Ismael: “Deus, Cristo e Caridade”.

REFERÊNCIAS:
1 RICHARD, Pedro. Frederico Pereira a Silva Júnior. Reformador, ano 32, n. 18, p. 299 a 302, 16 set. 1914; n. 19, p. 318 a 320, 1º out. 1914. Ver também RICHARD, Pedro. As revelações são sucessivas e gradativas – pt. I, II, III e IV, Reformador, ano 34, n. 21, 22, 23 e 24, p. 348 a 350, 365 a 368, 380 a 383, 395 a 397, nov.-dez. 1916; pt. V e VI, ano 35, n. 1 e 3, p. 24-25, 40 a 42, jan.-fev. 1917, espectivamente.
2 PEREIRA, Yvonne A. A tragédia de Santa Maria. Pelo Espírito Bezerra de Menezes. 13. ed. 4. Reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. pt. 4, cap. Quando o céu se revela…, p. 247-248.
3 SOARES, Sylvio B. Vida e obra de Bezerra de Menezes. 13. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. p. 117.
4 XAVIER, Francisco C. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Emmanuel. 34. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2014. cap. 28, p. 171- 172.
5 ____. Voltei. Pelo Espírito Irmão Jacob. 28. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2013. p. 174.






Mensagens de Allan Kardec desencarnado

As "instruções" de Allan Kardec

Autor: Canuto de Abreu. Livro: Bezerra de Menezes

A 5 de fevereiro de 1889 manifestava-se Allan Kardec através do médium Frederico Pereira da Silva Júnior, mais conhecido por Frederico Júnior, dizendo: “Eis que se aproxima para mim o momento de cumprir minha promessa, vindo fazer convosco em particular e com os espíritas em geral um estudo rápido e conciso, sobre a marcha da nossa doutrina nesta parte do planeta. É natural que a vossa bondade me forneça para isso o ensejo, na próxima sessão prática, servindo-me do médium com a mesma passividade com que o tem feito das outras vezes. A ele peço, particularmente, não cogitar de forma da nossa comunicação, não só porque dessa cogitação pode advir alteração dos pensamentos, como ainda porque acredito haver necessidade, sem ofensa à sua capacidade intelectual, de submeter a novos moldes, quanto à forma, aquilo que tenho dito e vou dizer em relação ao assunto.

Realmente, na sessão seguinte, na sede da “Sociedade Espírita Fraternidade”, no Rio de Janeiro, manifestou-se o Espírito do Codificador, dando as seguintes instruções ao espíritas brasileiros, que na época viviam em constantes dissensões e rivalidades.





INTRUÇÕES DE ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS DO BRASIL, NA SOCIEDADE ESPÍRITA FRATERNIDADE, PELO MÉDIUM FREDERICO JÚNIOR



Paz e amor sejam convosco

Que possamos ainda uma vez, unidos pelos laços da fraternidade, estudar essa doutrina de paz e amor, de justiça e esperanças, graças à qual encontraremos a estreita porta da salvação futura - o gozo indefinido e imorredouro para as nossas almas humildes.

Antes de ferir os pontos que fazem o objetivo da minha manifestação, devo pedir a todos vós que me ouvis – a todos vós espíritas a quem falo neste momento – que me perdoem se porventura, na externação dos meus pensamentos, encontrardes alguma coisa que vos magoe, algum espinho que vos vá ferir a sensibilidade do coração.

O cumprimento de dever nos impõe que usemos de linguagem franca, rude mesmo, por isso que cada um de nós tem uma responsabilidade individual e coletiva e, para salvá-la, lançamos mão de todos os meios que se nos oferecem, sem contarmos muitas vezes com a pobreza de nossa inteligência, que não nos permite dizer aquilo que sentimos sem magoar, não raro, corações amigos, para os quais só desejamos a paz, o amor e as doçuras da caridade.

Certo de que ouvireis a minha súplica; certo de que, falando aos espíritas falo a uma agremiação de homens cheios de benevolência, encetei o meu pequeno trabalho, cujo único fim é desobrigar-me de graves compromissos, que tomei para com o nosso Criador e Pai.

Sempre compassivo e bom, volvendo os piedosos olhos à Humanidade escrava dos erros e das paixões do mundo, Deus torna uma verdade as palavras de seu amantíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e manda o Consolador – o Espírito de Verdade – que vem abertamente falar da revelação messiânica a essa mesma Humanidade esquecida do seu Imaculado Filho – aquele que foi levado pelas ruas da amargura, sob o peso das iniquidade e das ingratidões dos homens!

Corridos os séculos, desenvolvido intelectualmente o espírito humano, Deus na sua sabedoria, achou que era chegado o momento de convidar os homens à meditação do Evangelho – precioso livro de verdades divinas – até então ensombrado pela letra, devido à deficiência da inteligência humana para compreendê-lo em Espírito.

Por toda a parte se fez luz; revelou-se à Humanidade o Consolador prometido, recebendo os povos – de acordo com o seu preparo moral e intelectual – missões importantes, tendentes a acelerar a marcha triunfante da Boa Nova

Todos foram chamados, a nenhum recesso da Terra deixou de apresentar-se o Consolador em nome desse Deus de misericórdia que não quer a morte do pecador – que não quer o extermínio dos ingratos – que antes os quer ver remidos dos desvarios da carne, da obcecação dos instintos!

Sendo assim, a esse pedaço de terra a que chamamos Brasil, foi dada também a revelação da revelação, firmando os vossos espíritos, antes de encarnarem, compromissos de que ainda não vos desobrigastes. E perdoai que o diga: tendes mesmo retardado o cumprimento deles e de graves deveres, levados por sentimentos que não convém agora perscrutar.

Ismael, o vosso Guia, tomando a responsabilidade de vos conduzir ao grande templo do amor e da fraternidade humana, levantou a sua bandeira, tendo inscrito nela – DEUS, CRISTO E CARIDADE. Forte pela sua dedicação, animado pela misericórdia de Deus, que nunca falta aos seus trabalhadores, sua voz santa e evangélica ecoou em todos os corações procurando atraí-los para um único agrupamento onde, unidos, teriam a força dos leões e a mansidão das pombas; onde unidos, pudessem afrontar todo o peso das iniquidade humanas; onde entrelaçados num único segmento – o do amor - , pudessem adorar o Pai em espírito e verdade; onde se levantasse a grande muralha da fé,

Contra a qual viessem quebrar-se todas as armas dos inimigos da luz; onde, finalmente, se pudesse formar um grande dique à onda tempestuosa das paixões, dos crimes e dos vícios que avassalam a Humanidade inteira!

Constituiu-se esse agrupamento; a voz de Ismael foi sentida nos corações. Mas, oh! misérias humanas! À semelhança das sementes lançadas no pedregulho, eles não encontram terra boa para suas raízes e quando aquele Anjo Bom – aquele Enviado do Eterno – julgava ter em seu seio amigos e irmãos capazes de ajudá-lo na sua grande tarefa, santa e boa, as sementes foram mirrando ao fogo das paixões – foram-se encravando na rocha, apesar do orvalho da misericórdia divina as banhar constantemente para sua vivificação!

Ali, onde a humildade devera ter erguido tenda, o orgulho levantou o seu reduto; ali onde o amor devia alçar-se, sublime e esplêndido, até aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, a indiferença cavou sulcos, a justiça se chamou injustiça, a fraternidade – dissensão!

Mas, pela ingratidão de uns, haveria de sacrificar-se a gratidão e a boa vontade de outros?

Pelo orgulho dos que já se arvoraram em mestres na sua ignorância, havia de sacrificar-se a humildade do discípulo perfeitamente compenetrado dos seus deveres? Não!

Assim, quando os inimigos da luz, quando o Espírito das trevas julgava esfacelada a bandeira de Ismael, símbolo da trindade divina, quando a voz iníqua já reboava no espaço glorificando o reino das trevas e amaldiçoando o nome do Mártir do Calvário, ele recolheu o seu estandarte e fez que se levantasse uma pequena tenda de combate com o nome – FRATERNIDADE!

Era este, com certeza, o ponto para o qual deviam convergir todas as forças dispersas – todos os que não recebiam a semente do pedregulho!

Certos de que acaso é palavra sem sentido e testemunha dos fatos que determinam o levantamento dessa tenda, todos os espíritas tinham o dever sagrado de vir aqui se agrupar, ouvir a palavra sagrada do bom Guia Ismael, único que dirige a propaganda da doutrina nesta parte do planeta, único que tem toda a responsabilidade da sua marcha e do seu desenvolvimento.

Mas, infelizmente, meus amigos, não pudestes compreender ainda a grande significação da palavra FRATERNIDADE.

Não é um termo, é um fato; não é sua palavra vazia, é um sentimento sem o qual vos achareis sempre fracos para essa luta que vós mesmos não podeis medir, tal a sua grandeza extraordinária!

Ismael tem o seu Templo e sobre ele a sua bandeira – Deus, Cristo e Caridade! Ismael tem a sua pequenina tenda, onde procura reunir todos os seus irmãos – todos aqueles que ouviram a sua palavra e a aceitaram como a verdade. Chamam-se FRATERNIDADE!

Pergunto-vos: Pertenceis à Fraternidade? Trabalhais para o levantamento desse Templo cujo lema é Deus, Cristo e Caridade?

Como, e de que modo?

Meus amigos! É possível que eu seja injusto convosco naquilo que vou dizer: - O vosso trabalho, feito todo de acordo – não com a doutrina – mas com o que interessa exclusivamente aos vossos sentimentos, não pode dar bom fruto. Esse trabalho, sem método, sem regime, sem disciplina, só pode, de acordo com a doutrina que esposastes, trazer espinhos que dilacerem vossas almas, dores pungentes aos vossos Espíritos, por isso que, desvirtuando os princípios em que ela assenta, dais entrada constante e funesta aquele que encontrando-vos desunidos pelo egoísmo, pelo orgulho, pela vaidade, facilmente vos acabrunhará, com todo o peso da sua iniquidade.

Entretanto, dar-se-ia o mesmo se estivésseis unidos? Porventura acreditais na eficiência de um grande exército dirigido por diversos generais, cada qual com seu sistema, com o seu método de operar e com pontos de mira divergentes? Jamais! Nessas condições sé encontrareis a derrota porquanto – vede bem, o que não podeis fazer com o Evangelho – unir-vos pelo amor do bem – fazem os vossos inimigos, unindo-vos pelo amor do mal!

Eles não obedecem a diversas orientações, nem colimam objetivos diversos; tudo converge para a doutrina espírita – revelação da revelação – que não lhes convém e que precisam destruir, para o que empregam toda a sua inteligência, todo do seu amor do mal, submetendo-se a uma única direção!

A luta cresce dia a dia, pois que a vontade de Deus, iniciando as suas criaturas nos mistérios da vida de além-túmulo, cada vez mais se torna patente. Encontrando-se, porém os vossos espíritos, em face da doutrina, no estado precário que acabo de assinalar, pergunto : - Com que elemento contam eles na temerosa ação em que se vão empenhar, cheios de responsabilidade?

Em que canto da Terra já se ergue o grande tabernáculo onde ireis elevar os vossos pensamentos – em que canto da Terra construístes a grande muralha contra o mal, contra a qual se hão de quebrar as armas dos vossos adversários?

Será possível que à semelhança das cinco virgens pouco zelosas, todo o cuidado da vossa paz tenhais perdido? Que repouseis sobre as outras que não dormem e que ansiosamente aguardam a vinda do seu Senhor?

Mas é assim, em que consiste o aproveitamento das lições que constantemente vos são dadas a fim de tornar uma verdade a vossa vigilância e uma santidade a vossa oração?

Se assim é, onde os frutos desse labor fecundado de todos os dias, dos vossos amigos de além-túmulo?

Acaso apodrecem roídas pela traça – trocados pelo bolor dos vossos arquivos repletos de comunicações?

Se assim é, e agora não há voltar atrás, porque já tendes a mão no arado, onde a segurança da vossa fé, a estabilidade da vossa crença, se entregues a vós mesmos, julgando-vos possuidores de grandes conhecimentos doutrinários, afastais, pela prática das vossas obras, aqueles que até hoje têm procurado incessantemente colocar-vos debaixo do grande lábaro – Deus, Cristo e Caridade?

Onde, torna a perguntar, a segurança da vossa fé, a estabilidade da vossa crença, se tendo uma única doutrina para apoio forte e inabalável, a subdividis, a multiplicais, ao capricho das vossas individualidades, sem contar com a coletividade que vos poderia dar a força, se constituíssem um elemento homogêneo, perfeitamente preparado pelos que se encarregam da revelação?

Mas onde a vantagem das subdivisões? Onde o interesse real para a doutrina e seu desenvolvimento, na dispersão que fazeis do vosso grande todo, dando já desse modo um péssimo exemplo aos profanos, por isso que pregais a fraternidade e vos dividis cheios de dissensões?

Onde as vantagens de tal proceder? Estarão na diversidade dos nomes que dais aos grupos? Por que isso? Será porque este ou aquele haja recebido maior doação do patrimônio divino? Será porque convenha a propaganda que fazeis?

Mas par a propaganda precisamos dos elementos constitutivos dela. Pergunto: - onde a Escola de Médiuns? Existe?

Porventura os homens que têm a boa vontade de estudar convosco os mistérios do Criador, preparando seus Espíritos para o ressurgir na outra vida, encontram em vós os instrumentos disciplinados – os médiuns perfeitamente compenetrados do importante papel que representam na família humana e cheio dessa seriedade, que dá uma idéia exata da grandeza da nossa doutrina?

Ou a vossa propaganda se limita tão somente a falar do Espiritismo? Ou os vossos deveres e as vossas responsabilidades, individuais e coletivas, se limitam a dar a nota do ridículo aquele que vos observam, julgando-vos doidos e visionários?

Meus amigos! Sei quanto é doloroso tudo isto que vos digo, pois que cada um dos meus pensamentos é uma dor que repassa profundamente o seu espírito. Sei que as vossas consciências sentem perfeitamente todo o peso das verdades que vos exponho. Mas eu vos disse ao começar: - temos responsabilidades e compromissos tomados, dos quais procuramos desobrigar-nos por todos os meios ao nosso alcance.

Se completa não está a minha missão na terra, se mereço ainda do Senhor a graça de vir esclarecer a doutrina que ai me foi revelada, dando-nos nossos conhecimentos compatível com o desenvolvimento das vossas inteligências, se vejo que cada dia que passa da vossa existência – iluminada pela sublime luz da revelação, se produzirdes um trabalho na altura da graça que vos foi concedida – é um motivo de escândalo para as vossas próprias consciências; devo usar desta linguagem rude do amigo, a fim de que possais, compenetrados verdadeiramente dos vossos deveres de cristãos e de espíritas, unir-vos num grande agrupamento fraterno, onde – avigorados pelo apoio mútuo e pela proteção dos bons – possais enfrentar o trabalho extraordinário que vos cumpre realizar para a emancipação dos vossos Espíritos, trabalho que inegavelmente ocasionará grande revolução na Humanidade, não só quanto à parte da ciência e da religião, como também na dos costumes!

Uma vez por todas vos digo, meus amigos: - Os vossos trabalhos, os vossos labores não podem ficar no estrito limite da boa vontade e da propaganda sem os meios elementares indicados pela mais simples razão.

Não vem absolutamente ao caso o reportas-vos às palavras de N.S. Jesus Cristo quando disse que a luz não se fez para ser colocada debaixo do alqueire. Não vem ao caso e não tem aplicação, porque não possuis luz própria!

Fazei a luz pelo vosso esforço; iluminai todo o vosso ser com a doce claridade das virtudes; disciplinai-vos pelos bons costumes no Templo de Ismael, Templo onde se adora a Deus, se venera o Cristo e se cultiva a Caridade. Então sim; - distribuí a luz, ela vos pertence.

E vos pertence porque é um produto sagrado de vosso próprio esforço – uma brilhante conquista do vosso Espírito empenhado nas lutas sublimes da verdade.

Fora desses termos, podeis produzir trabalhos que causem embriaguez à vista, mas nunca que falem sinceramente ao coração. Podeis produzir emoções fortes, por isso que muitos são os que gostosamente se entregam ao culto maravilhoso; nunca, porém, deixarão as impressões suaves da verdade vibrando as cordas do amor divino no grande coração humano.

Fora dessa convenção ortodoxa, é possível que as plantas cresçam nos vossos grupos, mas é bem possível que também seus frutos sejam bastante amargos, bastante venenosos, determinando, ao contrário do que devia acontecer, a morte moral do vosso espírito – a destruição pela base do vosso Templo de trabalho!

Se o Evangelho não se tornar realmente em vossos espíritos um broquel, quem vos poderá socorrer, uma vez que a revelação tende a absorver todas as consciências, emancipando o vosso século? Se o evangelho nas vossas mãos apenas tem a serventia dos profanos livros que deleitam a alma e encantam o pensamento, que vos poderá socorrer no momento dessa revolução planetária que já se faz sentir, que dará o domínio da Terra aos bons, preparados para o seu desenvolvimento, que ocasionará a transmigração dos obcecados e endurecidos para o mundo que lhes for próprio?

Que será de vós – quem vos poderá socorrer – se à lâmpada do vosso Espírito faltar o elemento de luz com que possais ver a chegada inesperada de Jesus Cristo, testemunhando o valor dos bons e a fraqueza moral dos maus e dos ingratos?

Se fostes chamados às bodas do filho do vosso rei, por que não tomam os vossos Espíritos as roupagens dignas do banquete, trocando conosco o brinde do amor e da caridade pelo feliz consórcio do Cristo com o seu povo?

Se tudo está preparado, se só faltam os convivas, por que cedeis o vosso lugar aos coxos que virão como últimos, a ser os primeiros na mesa farta da caridade divina?

Esses pontos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda, apesar da revelação, não provocaram a vossa meditação?

Esse eco que ressoa por toda a atmosfera do vosso planeta, dizendo – os tempos são chegados! – será um gracejo dos enviados de Deus, com o fim de apavorar os vossos espíritos?

Será possível nos preparemos para os tempos que chegam, vivendo cheios de dissensões e de lutas , como se não constituíssemos uma única família, tendo para regência dos nossos atos e dos nossos sentimentos uma única doutrina?

Será possível nos preparemos para os tempos que chegam, dando a todo momento e a todos os instantes a nota do escândalo, apresentando-nos aos homens como criaturas cheias de ambições que não trepidam em lançar mãos até das coisas divinas para o gozo da carne e a satisfação das paixões do mundo?

Mas seria simplesmente uma obcecação do Espírito – pretender desobrigar-se dos seus compromissos e penetrar no reino de Deus coberto dessas paixões e dessas misérias humanas!

Isso eqüivaleria o não acreditardes naquilo mesmo em que dizeis que credes: seria zombar do vosso Criador que, não exigindo de vós sacrifício, vos pede, entretanto, não transformeis a sua casa de oração em covil de ladrões!

Meus amigos! Sem caridade não há salvação. Sem fraternidade não pode haver união.

Uni-vos, pois, pela fraternidade debaixo das vistas do bom Ismael, vosso Guia e protetor. Salvai-vos pela Caridade, distribuindo o bem por toda a parte, indistintamente, sem pensamento oculto. Aquele que vos pedem lhes deis da vossa crença ao menos um testemunho moral, que os possa obrigar a respeitar em vós o indivíduo bem intencionado e verdadeiramente cristão.

Sobre a propaganda que procurais fazer, exclusivamente para ao vosso seio maior de adeptos, direi: se os meios mais fáceis que tendes encontrado são a cura dos vossos irmãos obsessos, são as visitas domiciliares e a expansão dos fluidos, aí tendes um modesto trabalho para vossa meditação e estudo.

E, lendo, compreendendo, chamai-me todas as vezes que for do vosso agrado ouvir a minha palavra e eu virei esclarecer os pontos que achardes duvidosos. Virei, em novos termos, se for preciso, mostrar-vos que esse lado que vos parece fácil para a propaganda da vossa doutrina é o maior escolho lançado no vosso caminho, é a pedra colocada às rodas do vosso carro triunfante e será, finalmente, o motivo da vossa queda desastrosa, se não empenham numa tão grande causa.

Permita Deus que os espíritas, a quem falo, que os homens, a quem foi dada a graça de conhecerem em Espírito e verdade a doutrina de Nosso senhor Jesus Cristo, tenham a boa vontade de me compreender, a boa vontade de ver nas minhas palavras unicamente o interesse do amor que lhe consagro.



ALLAN KARDEC